Paraguay quer usar em IA a energia de Itaipu que hoje vai para o Brasil
Em 2025, o Paraguay mandou ao Brasil 29% da sua energia de Itaipu. Um centro de IA quer usá-la, mas não tem contrato.
O governo dos Estados Unidos anunciou em 21 de outubro que a americana Crusoe e a paraguaia Araico fecharam uma parceria para construir infraestrutura de computação para inteligência artificial (IA) movida pela energia de Itaipu. A primeira operação da Crusoe está prevista para meados de 2027. O anúncio saiu no último dia da visita do subsecretário de Estado americano, Christopher Landau, a Asunción. O comunicado não traz valor, potência nem local. A Araico promove desde setembro um campus em Yguazú, no departamento de Alto Paraná, perto da fronteira com o Brasil. Segundo a própria empresa, o investimento total chegaria a US$ 12 bilhões. O comunicado americano não repete esse número.
O Paraguay usa só parte da energia que é dele
Pelo tratado de Itaipu, metade da energia gerada pela usina pertence ao Paraguay. Em 2025, essa metade somou 36.439,5 GWh (gigawatts-hora). A ANDE, a estatal de energia do Paraguay, usou 25.768 GWh. O resto, 10.671,5 GWh, foi cedido ao Brasil. Pelo excedente cedido no ano, o Estado paraguaio recebeu US$ 165,1 milhões de compensação. Na conta do ABC Color, isso dá US$ 15,5 por MWh (megawatt-hora). Esse valor é só a compensação paga ao Estado paraguaio, não o preço total da energia no Brasil.
A Araico promete pagar mais, mas o contrato não saiu
Em entrevista ao ABC Color no fim de setembro, Alejandro Zuccolillo, diretor da Araico, disse que a empresa pagaria à ANDE US$ 45 por MWh no início. O reajuste seria anual, pelo maior valor entre 2,5% e a inflação americana. Ele disse que a assinatura do contrato era iminente. Em 18 de outubro, a Última Hora ainda tratava a assinatura como pendente. A ANDE sustenta que não existe tarifa para esse tipo de consumo, segundo o ABC Color e a Última Hora. O presidente da ANDE, Miguel Báez, não respondeu às perguntas do ABC. Hoje, segundo o próprio Zuccolillo, a Araico se enquadra na tarifa da criptomineração, que vence em dezembro de 2027.
Mesmo pronto, o campus usaria menos de um quarto do que foi cedido
Pelo plano da Araico, o campus precisaria de cerca de 280 MW (megawatts) de potência da ANDE. Funcionando o ano inteiro em carga máxima, isso daria cerca de 2.450 GWh por ano. É cerca de 23% da energia cedida ao Brasil no ano passado. A primeira etapa tem 6 MW. Em um ano inteiro, ela usaria perto de 0,5% do que foi cedido. Segundo a empresa, a segunda etapa só começa depois da entrega da primeira e da aprovação do cliente.
O que vem
A Araico diz que entrega a primeira etapa em dezembro. A Crusoe prevê começar a operar em meados de 2027. Antes disso, falta a ANDE assinar o contrato e definir a tarifa. Falta também o Brasil e o Paraguay fecharem a revisão do Anexo C, a parte do tratado que define as bases financeiras e o custo da energia de Itaipu. Em agosto, o presidente da ANDE disse que a negociação continuava.
A leitura da Mesa
O anúncio de 21 de outubro é o primeiro com o governo americano e um operador conhecido dando nome e prazo. Isso é mais do que havia em setembro. Os US$ 12 bilhões, porém, continuam sendo um número da empresa. A comparação com o Brasil também pede cuidado. Os US$ 15,5 por MWh são só a compensação que chega ao Estado paraguaio. Os US$ 45 seriam o preço pago à ANDE, que por sua vez compra a energia de Itaipu. Para quem pensa em vir, o ponto é outro: o Paraguay está tentando transformar energia em indústria dentro do país, e isso mexe com emprego, terreno e serviços em Alto Paraná. Antes de contar com isso, acompanhe duas coisas: o contrato assinado com a ANDE e os primeiros 6 MW ligados em dezembro. Sem os dois, é anúncio.
Você acha que o Paraguay deve usar a energia de Itaipu dentro do país em vez de cedê-la ao Brasil? Comenta aqui embaixo.
Fontes: Departamento de Estado dos EUA, 21/10 · La Nación, 22/10 · ABC Color, 30/09 (Araico e ANDE) · ABC Color, 20/01 (cessão de 2025) · RDN, 20/01 · La Nación, 12/01 (Itaipu 2025) · Última Hora, 18/10 · 5Días, 03/08 (Anexo C) · Foto: USGS (domínio público)